Partilhando outras abordagens para a vida

O segundo dia de atividades no Centro Paulo Freire iniciou com um estímulo a reflexão sobre tempo e luz. Recife amanheceu com uma chuva torrencial e um engarrafamento que remodelou as relações dos participantes com o cotidiano do evento.  As pessoas chegaram em outro ritmo, falando mais baixo, andando mais devagar e dando a si mesmas o tempo para se integrar ao contexto das atividades.

Este aspecto encontrou eco no diálogo que Miguel Chikaoka propôs assim que boa parte dos arte-educadores entrou no auditório: é preciso desenvolver uma relação distinta com o que chamamos de universo. É importante prestar atenção nas sutilezas das composições e dinâmicas da vida antes de fazermos qualquer outra coisa, inclusive educar e fotografar. Buscar os elementos e relações essenciais para o que está sendo abordado no processo educativo é fortalecer uma base de percepções sobre o mundo – o que para ele é essencial.

Chikaoka partilhou sua trajetória com os participantes. Regina Navarro foi uma referência | Foto: Ana Lira/Retratografia

Chikaoka partilhou trajetória no evento. Regina Navarro foi uma referência | Foto: Ana Lira/Retratografia

Chikaoka compartilhou com os participantes uma série de reflexões feitas ao longo de sua trajetória como educador e fotógrafo e como encontrou caminhos para desenvolver pesquisas formativas em parceria com participantes diversos de suas oficinas, fossem eles educadores ou crianças de cinco anos de idade, moradoras de pequenas ilhas no Pará.  Ele focou seus desejos em processos que ajudassem a estimular a percepção da luz como um ponto de partida de reflexões acerca de quem somos, como nos vemos e somos estimulados pelos contextos externos e internos a nós.

Para isso, além de colocar o ato fotográfico entre as etapas finais dos processos formativos e criativos, ele passou a considerar os impactos desses processos na dinâmica corporal individual e coletiva. Como os nossos corpos reagem a isso? De que maneira estes estímulos promovem respostas e novas iniciativas por meio deles? Um dos aspectos discutidos por ele foi a capacidade de observação e interação dos seres humanos com os sentidos físicos como a visão, audição, tato, olfato e paladar.

Ele percebeu em uma oficina com a presença de participantes ouvintes e não ouvintes que os que não ouviam conseguiam desenvolver melhor as atividades. Por considerar a audição um elemento essencial, os ouvintes não davam a devida atenção aos detalhes que estavam no campo da percepção visual e do tato. Assim, o educador começou a trabalhar alguns procedimentos educativos (como a construção da caixa mágica) em silêncio, conduzindo toda a atividade somente por meio de gestos. A decisão enriqueceu suas pesquisas e formações, bem como os processos de aprendizado e parcerias desenvolvidos desde então.

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Pesquisas e projetos junto com a FotoAtiva no Pará dividem espaço com as atividades que ele desenvolve andando pelo país | Foto: Ana Lira/Retratografia

Chikaoka chamou atenção para essas relações porque o cotidiano social é cada vez mais estimulado por conteúdos anestesiantes e a escola, que seria um espaço de reflexão crítica, está engessada por um modelo educacional que dificulta a construção de uma formação autônoma tanto individual quanto coletiva. É por isso que, para ele, ações e procedimentos que visem contrapor o modelo industrial de educação e que agreguem a participação da comunidade escolar e do seu entorno devem ser valorizadas e compartilhadas entre o máximo possível de educadores das mais diversas regiões do país.

João Kulcsár concorda com Chikaoka e, coincidentemente, sua apresentação trouxe diversos pontos de contato com a do pesquisador paraense. Kulcsár iniciou sua conversa com os participantes perguntando quem se considerava educador e quem se considerava artista. As pessoas responderam levantando as mãos. Pouco tempo depois, ele perguntou quem se considerava pesquisador e parte dos presentes levantou a mão.

Ele voltou às reflexões que vinha traçando e que dialogavam com a fala de Miguel para afirmar que todas as pessoas são pesquisadores. Educadores e educandos estão buscando informações que os interessam para compor seus repertórios, de modo que a pesquisa é uma atividade cotidiana. Ela pode ocorrer com interesses e intensidades diferentes, mas ela está conectada com a rotina de qualquer pessoa.

João dialoga sobre estratégias que envolvem alfabetização visual |  Foto: Ana Lira/Retratografia

João dialoga sobre estratégias que envolvem alfabetização visual | Foto: Ana Lira/Retratografia

A diferença é que alguns grupos questionam pontos de vista e buscam maneiras diferenciadas de lidar com os entraves rotineiros. Kulcsár acredita que este processo é essencial para mudar estruturas conceituais e práticas importantes na vida. Segundo ele, é preciso cuidar para que o automatismo não nos coloque em situações em que a observação é interrompida. Os processos de produção e edição interferem na nossa percepção e precisamos dialogar com estes elementos com a maior clareza possível.

Por isso, ele se dedica a chamada Alfabetização Visual. Um processo que articula conhecimentos voltados para os elementos e leitura crítica da imagem que, segundo Kulsár, são essenciais para que as pessoas consigam lidar com a quantidade de informação imagética que chega todos os dias por meio dos mais variados tipos publicações (informativas, educacionais, promocionais) e suportes de veiculação publicitária.

Além disso, João Kulcsár atua em processos formativos que trabalham a educação fotográfica para o público com deficiência visual e a interação dele com outros grupos sociais. Parte de seus alunos de fotografia participa de seus projetos e núcleos de outras entidades sociais também atuam nessas parcerias. Foi por meio destas ações que eles construíram projetos de adaptação de imagens em alto relevo para o público deficiente visual, que são publicadas em catálogos de exposições, calendários e materiais educativos específicos.

Participantes debateram encaminhamentos dos projetos do educador |  Foto: Ana Lira/Retratografia

Participantes debateram encaminhamentos dos projetos do educador | Foto: Ana Lira/Retratografia

Outros projetos incluíram a vinda do esloveno Evgen Bavcar ao Brasil para desenvolver atividades com as turmas integradas aos projetos. Uma delas participou de uma oficina de lightpainting, que é uma das técnicas utilizadas por Bavcar em seus processos criativo na fotografia. O fotógrafo que ficou cego por meio de dois acidentes de guerra ficou emocionado ao ver suas imagens elaboradas pelos educandos.

Estas iniciativas abrem novos meios de interação com projetos educativos, que podem ser desenvolvidos na escola, em universidades, projetos sociais, nos museus e centros culturais. Estas parcerias requerem uma renovação constante de referências, intercâmbios de experimentações e um olhar atento para o que está ocorrendo em seu entorno. Bem desenvolvidas, elas conseguem resultados transformadores, como os que o Kulcsár exibiu em sua conversa e chamou tanta atenção dos participantes na manhã de hoje.

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